Há algo de paradoxal na nossa relação com o malandro. Melhor dizendo, com as representações simbólicas do malandro. Enquanto que, naquilo que temerariamente (depois de Baudrillard) ainda podemos chamar de “mundo real”, essa figura é vista com certo receio, como um desvio da normalidade ditada pelas leis positivas e pela moral religiosa, na mídia, ela é indubitavelmente um fator agregador de identificação e aceitação (ou, contrariando tudo isso, talvez ele seja justamente bem aceito na mídia por o ser no “mundo real”?). Há quem diga que o malandro, além de ser uma espécie de tipo-ideal do brasileiro, é uma figura constante na cultura de massa do País, seja na literatura, telenovelas, quadrinhos etc.
Tenho em mente aqui, claro, João Grilo e Chicó. Os dois parecem encarnar em si as características mais típicas da malandragem – esse “modo de navegação social”, como diria Roberto da Matta, que consiste numa certa personalização das leis positivas e morais que regem oficialmente nossa sociedade. Leis estas impessoais e, por isso mesmo, insensíveis aos dramas e à moralidade que caracterizam nosso dia-a-dia. O malandro seria uma espécie de profissional do “jeitinho”, detentor da nobre arte de saber sobreviver nas situações mais difíceis.
Ele é quase a materialização do famoso dilema da sociedade brasileira: o fato de vivermos numa oscilação entre leis universais que consistem no esqueleto nacional, e situações onde cada qual se salva e se despacha como pode, utilizando para isso seu sistema de relações pessoais. A malandragem e o “jeitinho” são justamente modos de enfrentar essas contradições – e o ponto, aqui, é que aqueles que conseguem enfrentá-las, como os personagens acima, são inegavelmente encarados de maneira positiva.
É esclarecedor lembrar do final d’O Auto da Compadecida, quando o cangaceiro é absolvido dos seus pecados e mandado para o céu. Ele, afinal, nada mais fez que buscar meios de sobreviver numa sociedade regida por leis cruéis. Virtude que também é enfatizada com relação a João Grilo. E que consiste justamente no fator que gera a identificação no espectador. O que nos leva a indagar: o quão revelador das nossas relações sociais é essa aceitação positiva do malandro?
Dezembro 28, 2008 at 1:03 am
Acho que esse lance “o brasileiro faz o que precisa pra viver” é o álibi para todo esse comportamento e ‘admiração’. E muita gente acaba se justificando ‘maquiavelicamente’ tendo em vista que o “fim justifica os meios”…
Sem contar q os malandros são personagens de extremo carisma, que passam aquela idéia de coração bom, mas que não tiveram opção em face às vicissitudes de vida.
Sendo que todos encontram adversidades pelo caminho, então se identificam…