Há algo de paradoxal na nossa relação com o malandro. Melhor dizendo, com as representações simbólicas do malandro. Enquanto que, naquilo que temerariamente (depois de Baudrillard) ainda podemos chamar de “mundo real”, essa figura é vista com certo receio, como um desvio da normalidade ditada pelas leis positivas e pela moral religiosa, na mídia, ela é indubitavelmente um fator agregador de identificação e aceitação (ou, contrariando tudo isso, talvez ele seja justamente bem aceito na mídia por o ser no “mundo real”?). Há quem diga que o malandro, além de ser uma espécie de tipo-ideal do brasileiro, é uma figura constante na cultura de massa do País, seja na literatura, telenovelas, quadrinhos etc.

Tenho em mente aqui, claro, João Grilo e Chicó. Os dois parecem encarnar em si as características mais típicas da malandragem – esse “modo de navegação social”, como diria Roberto da Matta, que consiste numa certa personalização das leis positivas e morais que regem oficialmente nossa sociedade. Leis estas impessoais e, por isso mesmo, insensíveis aos dramas e à moralidade que caracterizam nosso dia-a-dia. O malandro seria uma espécie de profissional do “jeitinho”, detentor da nobre arte de saber sobreviver nas situações mais difíceis.

Ele é quase a materialização do famoso dilema da sociedade brasileira: o fato de vivermos numa oscilação entre leis universais que consistem no esqueleto nacional, e situações onde cada qual se salva e se despacha como pode, utilizando para isso seu sistema de relações pessoais. A malandragem e o “jeitinho” são justamente modos de enfrentar essas contradições – e o ponto, aqui, é que aqueles que conseguem enfrentá-las, como os personagens acima, são inegavelmente encarados de maneira positiva.

É esclarecedor lembrar do final d’O Auto da Compadecida, quando o cangaceiro é absolvido dos seus pecados e mandado para o céu. Ele, afinal, nada mais fez que buscar meios de sobreviver numa sociedade regida por leis cruéis. Virtude que também é enfatizada com relação a João Grilo. E que consiste justamente no fator que gera a identificação no espectador. O que nos leva a indagar: o quão revelador das nossas relações sociais é essa aceitação positiva do malandro?