Queria esboçar aqui uma primeira aproximação das minisséries Cidade dos Homens e Cruzamentos Urbanos com o esquema narrativo do melodrama. Nessa breve nota, acredito que a classificação de Martín-Barbero entre melodrama tradicional e moderno é extremamente útil.
Diz ele:
No melodrama tradicional predomina a inclinação trágica, pondo em imagens unicamente paixões e sentimentos primordiais, elementares, excluindo do espaço dramático toda ambigüidade ou complexidade histórica e neutralizando, com freqüência, as referências de lugar e de tempo. Nesse gênero, os conflitos centrais são os de parentesco, a estrutura dos estratos sociais é cruamente maniqueísta e os personagens são puros signos.
É possível fazer uma aproximação dessas características com Cruzamentos Urbanos, embora que matizada. Temos, ali, uma neutralização deliberada das referências de lugar e tempo, em busca de um “tratamento universal” da temática. Igualmente, conflitos que se centram nas relações afetivas entre os personagens (Assis com os pais, Carla e a mãe, Assis e Carla), em que a posição ética dos personagens, se assim podemos chamar, está desde o início marcada: sabemos logo quem são os “mocinhos” e os “bandidos”. Não é de se estranhar, portanto, que os personagens se transformem em “puros signos”: Makau é o protótipo do bandido-traficante; Assis, o garoto pobre que se apaixona pela garota rica; Carla, a rica abandonada pela mãe que se apaixona pelo menino pobre; a mãe de Carla, a jornalista que não tem tempo para a filha, e assim por diante. Não há matizes nessas posições dos personagens. Eles puramente o são.
Voltando à Martín-Barbero:
O melodrama moderno, sem romper de todo o esquema melodramático, incorpora um realismo que permite a cotidianização da narrativa, perpassada por imaginários de classe e território, gênero e geração, ao mesmo tempo em que explora as possibilidades expressivas abertas pelo cinema, pela publicidade e pelo videoclipe. Os personagens, em alguma medida, se aproximam das rotinas cotidianas e das ambigüidades da história, da diversidade das falas e dos costumes.
Em Cidade dos Homens temos claramente, como indicado em posts anteriores, uma aproximação com as ambigüidades não só da história, mas da própria constituição cultural dos sujeitos sociais – ambigüidade, é sempre bom ressaltar, que se constitui no cerne mesmo da sociedade brasileira. Os imaginários de classe, a diversidade de falas e costumes, se acentuam muito em função dos atores da minissérie serem os próprios personagens que eles retratam. A aproximação com um certo realismo é aqui ainda maior e mais deliberada. Das possibilidades de expressão audiovisual seria quase redundante apontar, visto que o que caracteriza a estrutura narrativa, principalmente nos primeiros episódios, é uma experimentação bastante rara de se encontrar na televisão. Experimentações já iniciadas em Cidade de Deus, cujo sucesso certamente contribuiu para a possibilidade de efetivação destas na TV.
Claro, seria cair num dualismo ingênuo se pretendêssemos fixar sem mais uma classificação, uma distinção definitiva entre as duas minisséries. Mas acredito que essa atitude analítica seja em certa medida útil, pois, a partir dela, podemos traçar não só as diferenças entre as linguagens desses bens simbólicos, como também todas as possíveis inter-relações nesse continuum.